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Jornada dupla marca ponto de viragem nas dinâmicas associadas ao projeto

Nos últimos dois dias do mês de outubro, o projeto Alternativas organizou uma jornada dupla, no espaço da CooLabora, na Covilhã: o Encontro – Experiências Locais e Transformações Societais, no dia 30; e o exercício de avaliação do projeto por parte dos seus intervenientes, no dia 31. Foram dias de reflexão e interpelação sobre o papel das alternativas no nosso mundo atual e que a todos e todas nos fez pensar sobre o caminho feito, mas também no muito que ainda está por fazer. 

No primeiro encontro, organizado em parceria com o Fórum Cidadania & Território, foram apresentados dois projetos que levaram os e as participantes a refletirem e questionarem o papel e a natureza das iniciativas locais alternativas na construção de sociedades mais justas, equitativas e sustentáveis. José Luis Sánchez, da Universidade de Salamanca, expôs o projeto PRESECAL – Práticas Económicas Alternativas em Cidades Espanholas e os seus principais resultados, com foco na identificação e análise de práticas económicas alternativas em cidades espanholas durante a crise socioeconómica. Seguiram-lhe Jorge Cardoso, da FGS, e Susana Pereira, da Rede INDUCAR, com a apresentação do projeto Alternativas – Experiências Locais para uma Transformação Global que, a partir de um conjunto de processos de reflexão, colaboração e aprendizagem, criou um mapa de Iniciativas Locais de Mudança (ILM) em Portugal e fez um trabalho de acompanhamento de 4 destas iniciativas, para com elas retirar aprendizagens sobre o que é a transformação social e quais os mecanismos que já existem para a tornar real no nosso país. Desta reflexão nasceu também a Carta Aberta para a Transformação Socialque foi partilhada com os e as participantes.

Estas apresentações foram complementadas com os comentários e interpelações de 

Luciane Lucas dos Santos, do CES da Universidade de Coimbra, e de André Barata, do Labcom IFP da Universidade da Beira Interior e deram origem a um profícuo debate que, durante a tarde, levou os e as participantes a questionarem e discutirem os obstáculos que existem para a transformação social, o papel das iniciativas alternativas nesta transformação e o papel de cada um/a de nós. Transformaçãoutopiapessoasdiversidadeprojeto, valor, local, narrativas, alternativa foram algumas das palavras que  estiveram presentes durante toda a conversa. 

O evento terminou com as conclusões de João Ferrão, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que resumiu em 9 pontos as várias questões que surgiram no decorrer do dia e que nos interpelam para desafios futuros: 

1.Tensão e dialética entre Utopia Urgência nas iniciativas 
A Utopia leva-nos para um futuro desejado, mas as urgências diárias focam-nos numa abordagem operacional de sustentabilidade das iniciativas. Como podemos articular isto no dia-a-dia das iniciativas? 

2. Crítica ao paradigma moderno 
O paradigma moderno racionalista, dual, focado no progresso e na neutralidade dos agentes, está intrinsecamente ligado ao sistema capitalista. Como podemos ir além deste paradigma moderno e valorizar as normatividades intrínsecas, os valores alternativos de cada iniciativa que vão além do racionalismo moderno? 

3.O contexto macro de crise e o futuro para além deste 
A crise enquanto contexto macro potenciou novas formas de agir e pensar alternativas. É vital percebermos como manter a chama acesa das alternativas para além deste macro-contexto. Será via políticas públicas, como aconteceu no caso espanhol? 

4. Local e localismo  
As abordagens de âmbito local são essenciais, mas muitas vezes desaguam em localismos que se fecham em lógicas competitivas. Como podemos favorecer o âmbito local, potenciando a a colaboração e cooperação entre iniciativas, mas evitando lógicas autofechadas em si mesmas? 

5. A geografia dos sintomas dos problemas, das suas causas e soluções 
Abordar a realidade do nosso mundo atual globalizado a partir de uma perspetiva geográfica faz-nos ver que a geografia dos sintomas, das suas causas e de possíveis soluções não é a mesma. Como podemos pensar e potenciar intervenções multi-escalares, de trabalho em rede e transnacionais que favoreçam uma abordagem sistemática a estas diferentes geografias? 

6. A informalidade como traço identitário 
Um dos traços mais reais destas iniciativas alternativas é a sua informalidade, que é visível em iniciativas que se assumem como movimentos, mais do que como instituições. Quais os limites, vantagens e desvantagens desta informalidade? 

7. A dualidade de conceitos como obstáculo 
Fruto do pensamento moderno, a abordagem dualista da realidade não facilita leituras integrais da mesma. Análises dicotómicas como rural/urbano, litoral/interior, etc., limitam a nossa reflexão. Não deveríamos antes entender o território como uma realidade relacional que une 3 pólos – economia, ecologia e comunidade – e evitar os dualismos frequentes? 

8. A vida como fator unificador dos 3 pólos relacionais do território 
Comunidade, ecologia e economia, entendidos como 3 pólos relacionais que sustentam o território, devem estar ao serviço da vida no seu todo. Uma vida justa, sustentável, aberta a todos e todas e não antropocentrada. Como podemos rever a Carta Aberta para a Transformação Social focando exatamente a questão da sustentabilidade da vida como essência das relações de um território? Como a podemos levar mais longe? 

9. Tornar visíveis as normatividades implícitas das iniciativas 
É fundamental que as iniciativas tornem explícitas as suas normatividades, os valores que defendem e advogam, como forma de transformar em palavras concretas e em discursos as utopias que defendem para fazer face ao sistema hegemónico. Como podemos fazê-lo?

A segunda parte da jornada, no dia 31, reuniu a maioria dos/as intervenientes diretos do projeto Alternativas num exercício de avaliação do caminho feito ao longo dos últimos dois anos. Membros da equipa de parceria (FEC, FGS, Rede Inducar e Coolabora), membros de 3 das iniciativas com quem se realizou o trabalho de terreno (Os Surpreendentes Incalculáveis, Casa da Esquina e Moledo ComVida), e membros da equipa que realizou esse trabalho de terreno foram, ao longo do dia, recuperando o caminho feito, avaliando o que foi atingido e perspetivando caminhos futuros de trabalho. Foi visível, por parte de todos e todas, uma enorme vontade e sentido de continuar a aprofundar as relações construídas e de sonhar próximos passos que possam incluir, por exemplo, encontros entre ILM mapeadas, momentos de capacitação e trocas de experiência e ainda atividades que disseminem as várias aprendizagens realizadas. 

Nos próximos meses, o Alternativas irá divulgar os recursos resultantes do trabalho levado a cabo: a Carta Aberta para a Transformação Social, que interpela todos e todas a revê-la e a comentá-la; o Mapa de Iniciativas, que se mantém aberto e em constante atualização; o recurso pedagógico sobre transformação social, dirigido a todos e todas que pretendem compreender e discutir os caminhos possíveis para transformação social; e a publicação e o documentário que espelham o trabalho da equipa de terreno realizado com as 4 ILM.

 

 

 

 

 

 

 

 

Para saber mais sobre o projeto Alternativas – Experiências Locais para uma Transformação Global, ouça a entrevista dada à Rádio SIM AQUI.